Morre lentamente (poema de Pablo Neruda)

Retrato de Isabel Temporão

Morre lentamente,
quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente,
quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.


Morre lentamente ,
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente,
quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente,
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e
os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente,
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece,
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.


Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.

Pablo Neruda
 

Comentários

  Morre lentamente...

 Aquele que não se abre ao mundo e

Prefere o cinzento do céu ao brilho do sol,
Aquele que não consegue ver nos outros um pouco de si,
Que desvaloriza um olhar e o perfume da rosa,
Aquele que já não é capaz de amar e ser amado e já nem se atreve a sonhar,
Aquele que perdeu o brilho nos olhos e se esqueceu como era ser criança,
Morre lentamente…
Aquele que se eclipsou para si mesmo e para os outros…

Morre lentamente...

Pois é...

e morre lentamente quem não vive...

e viver é...

sorrir e, por vezes, chorar...

brincar e ser sério...

amar e, também, odiar...

falar e estar calado...

sussurrar e,  com razão, gritar...

concordar e, claro, contrariar...

trabalhar e, muitas vezes, preguiçar...

enfim, viver é sentir.

 

 

Morre lentamente...

Temos poetisas..... (só hoje reparei...)